O vento atinge primeiro.
Frio, fino, a picar através da roupa enquanto te aproximas da borda. Muito lá em baixo, os carros parecem brinquedos, as pessoas parecem pontos em movimento. Estás em segurança, atrás da barreira, com os pés bem assentes. E, de repente, um pensamento corta-te a mente como um bug num videojogo: E se eu saltasse?
O estômago cai-te. Agarras-te ao corrimão com mais força. Não és suicida, não queres morrer. Mesmo assim, a imagem está lá, não convidada e perturbadoramente vívida. Um passo em frente. O ar a passar a toda a velocidade. O impacto.
Recuas, um pouco abalado, e talvez tentes desvalorizar com uma risada. “Uau, isto foi negro.” Pegas no telemóvel. Não contas a ninguém. Ainda assim, a cena fica, mais tarde - no duche, no autocarro, mesmo antes de adormecer.
Há um nome para essa sensação, e é mais estranha do que imaginas.
A estranha atração da borda
Os psicólogos chamam-lhe “fenómeno do lugar alto”, mas a maioria de nós conhece-o pelo nome mais poético: o “chamamento do vazio”. É aquela súbita, intrusiva vontade que às vezes aparece não apenas de saltar de uma altura, mas de guinar o carro para a faixa contrária, de atirar o telemóvel de uma ponte, de dizer de repente algo horrível numa sala silenciosa.
Assusta porque parece vir do nada. Num segundo estás bem, no seguinte o teu cérebro passa um trailer de terror mental protagonizado por… ti. Esse pequeno clarão pode abalar até a pessoa mais racional. Começas a perguntar-te: se consigo pensar isto, de que mais serei capaz?
Numa esplanada no topo de um edifício em Manchester, uma gestora de marketing de 29 anos disse-me que evita ficar perto de guardas de vidro. Não porque tenha medo de alturas. Mas porque tem medo de si própria. “É como um pensamento súbito: basta dar um passo,” disse ela, com os olhos a fugirem para a borda. “Eu não quero fazê-lo, mas aparece. Sinto-me louca só por ter pensado nisso.”
Não está sozinha. Num estudo americano, quase metade dos participantes que nunca se tinham sentido suicidas relatou exatamente este tipo de impulso ao estar num sítio alto. Não estavam em risco. Não estavam a planear nada em segredo. Eram apenas… humanos. Os números apontam para algo discretamente universal, escondido à vista dentro da nossa mente.
O que está a acontecer é muito mais banal do que o teu medo sugere. Quando estás perto de uma queda, o teu sistema de sobrevivência entra em alerta máximo. O teu cérebro dispara um sinal rápido: “Afasta-te!” Mas, como a linguagem e a consciência são confusas, podes interpretar esse alarme como “Salta.” A mente transforma um aviso de segurança numa ideia perigosa. E depois, por sermos humanos, analisamo-la em excesso.
Alguns investigadores acham que isto é, em parte, um sinal de forte autopreservação: a reação é tão rápida que o teu cérebro consciente só apanha o eco. Outros apontam para a forma como simulamos constantemente cenários de “e se”, a maioria inofensivos. A borda apenas aumenta o volume. Não estás a vislumbrar um desejo secreto de morrer. Estás a esbarrar com a forma como o teu cérebro funciona no limite do medo.
Viver com bordas intrusivas na mente
Há um pequeno gesto mental que pode mudar tudo naquele momento. Dá-lhe um nome. Em vez de te fundires com o pensamento - “Porque é que eu quero saltar?” - tenta etiquetá-lo mentalmente: “Ah, isto é o chamamento do vazio. É o meu cérebro a falhar no modo de segurança.”
É uma mudança subtil, mas cria algum espaço entre ti e a imagem. Tu não és o impulso. És a pessoa que está a reparar no impulso. Um passo mais: descreve-o a ti próprio, quase como um repórter. “Estou numa varanda e o meu cérebro acabou de me enviar uma imagem estranha de saltar.” O drama desce um nível quando o ouves em linguagem simples.
Num trilho no topo de uma falésia na Cornualha, vi um casal fazer isto sem perceber que era uma técnica. Ela congelou, com os olhos presos na queda. “O cérebro está a fazer aquela coisa de saltar outra vez,” disse, meio a rir. Ele apertou-lhe a mão e respondeu: “Sim, o meu também.” E, assim, a tensão mudou. O pensamento não desapareceu, mas deixou de ser um monstro secreto e passou a ser apenas… estranheza humana partilhada.
Muitas pessoas acham que o movimento certo é combater o pensamento, empurrá-lo para longe, fingir que nunca chegou. Sejamos honestos: ninguém faz isso todos os dias. Quanto mais tentas não pensar em algo, mais isso cola. Síndrome do urso branco. A mente adora uma imagem proibida.
Um caminho mais gentil é tratá-lo como ruído de fundo. Repara nele, dá-lhe um nome, deixa-o passar. Se o impulso te incomodar mesmo, muda algo físico: afasta-te da borda, respira devagar, sente os pés no chão. Aterra o corpo para que os pensamentos não pareçam capazes de te lançar para o espaço. Estás a lembrar ao teu sistema nervoso: estamos aqui, estamos firmes, não vamos a lado nenhum.
Também não precisas de te diagnosticar sempre que a mente fica sombria. A maioria das pessoas que tem estes clarões não está secretamente no limite. O que ajuda é detetar padrões: estes pensamentos estão ligados a stress, falta de sono, demasiada cafeína, uma fase emocional difícil? Nem sempre controlas o primeiro pensamento, mas podes influenciar o terreno onde ele cai.
“Os pensamentos intrusivos são como emails de spam,” disse-me uma terapeuta em Londres. “Não os pediste, não são um reflexo do teu caráter, e não tens de abrir todos.”
Há algumas guardas de proteção suaves que podes usar quando o chamamento do vazio aparece mais vezes do que gostarias:
- Faz uma pausa e dá-lhe um nome: “Isto é aquela coisa do lugar alto, não é um desejo real.”
- Afasta-te fisicamente se te sentires instável - não há prémio por ficares mesmo na borda.
- Fala com alguém em quem confies se os pensamentos parecerem mais pesados ou mais frequentes.
- Limita a autópsia em espiral: não precisas de dissecar cada falha mental.
- Se tens historial de ideação suicida, trata novos impulsos como um sinal real para procurares apoio rapidamente.
Porque é que este sussurro sombrio pode ser estranhamente tranquilizador
Quando sabes que este fenómeno tem um nome, a história que contas a ti próprio pode mudar. O impulso que antes parecia prova de que estavas “estragado” pode tornar-se evidência de outra coisa: um sistema nervoso a funcionar, um cérebro a correr cenários sem parar, uma mente que deteta o perigo tão bem que, às vezes, falha o tiro.
Isso não torna o momento menos inquietante. À beira de um prédio em Londres ou no topo de uma falésia no País de Gales, o vazio em baixo continua a parecer que vibra com possibilidades. O pensamento ainda cai: salta. Mas podes relacionar-te com ele de outra forma. Não como uma ordem. Como uma tradução com falhas de um instinto profundo de “fica vivo”.
Numa noite tranquila, pensa em quantas outras instruções estranhas o teu cérebro lança todos os dias: Diz ao teu chefe o que realmente achas. Deixa cair o prato só para ouvires partir. Diz a pior frase possível neste elevador silencioso. A maioria nunca sai da tua cabeça. Tu não és os teus impulsos. És o sistema inteiro - confuso, contraditório - que tem de decidir quais seguir.
Dizemos muitas vezes que queremos uma mente calma, mas um mundo interior completamente silencioso seria outra coisa: plano, mecânico, quase alienígena. A mente humana é barulhenta, intermitente, por vezes chocante. O chamamento do vazio é uma das suas faíscas mais sombrias, mas também um dos lembretes mais claros de que estás constantemente a negociar contigo próprio. Essa negociação silenciosa, repetida em pequenos momentos - em varandas, falésias, plataformas de comboio - é uma forma muito quotidiana de coragem.
| Ponto-chave | Detalhe | Interesse para o leitor |
|---|---|---|
| O “chamamento do vazio” é comum | Muitas pessoas sentem estes impulsos sem serem suicidas | Normaliza a experiência e reduz o medo de ser “louco” |
| Dar nome ao momento muda tudo | Colocar uma palavra e uma etiqueta no impulso cria distância | Oferece uma ferramenta concreta para manter a calma perante o pensamento |
| Pedir ajuda não tira nada à tua força | Um profissional pode distinguir pensamento intrusivo de sofrimento real | Incentiva a não ficar sozinho com pensamentos demasiado pesados |
FAQ:
- O “chamamento do vazio” é um sinal de que sou suicida?
Não necessariamente. Muitas pessoas têm estes impulsos súbitos sem qualquer desejo de morrer. A diferença está na frequência com que aparecem, na intensidade com que se sentem e se também tens pensamentos persistentes de querer acabar com a vida.- Porque é que sinto vontade de saltar quando não tenho medo de alturas?
O teu cérebro não está apenas a reagir à altura; está a reagir à possibilidade. Estar numa borda torna uma ação drástica fisicamente “fácil”, por isso a tua mente explora por instantes esse cenário, como uma simulação rápida.- Ter estes pensamentos significa que há algo de errado com o meu cérebro?
Não, por si só. Pensamentos intrusivos são uma parte normal do funcionamento mental. Podem surgir mais vezes com ansiedade, perturbação obsessivo-compulsiva (POC) ou stress, mas um único clarão perturbador não equivale a uma perturbação.- Devo evitar varandas, falésias ou lugares altos se sinto isto?
Se te sentires genuinamente inseguro, afastar-te é sensato. A longo prazo, expor-te com cuidado, usando técnicas de ancoragem e dando nome ao pensamento, pode ajudar-te a sentir menos controlo por parte dele.- Quando devo preocupar-me e procurar ajuda profissional?
Se os impulsos vierem acompanhados de uma vontade real de morrer, se estiveres a planear como poderias agir, ou se forem suficientemente frequentes para perturbar a tua vida diária, é o momento de contactar um médico de família, um terapeuta ou uma linha de crise sem esperar.
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