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Especialistas dizem que a regra dos 19 °C está ultrapassada e recomendam uma temperatura diferente para aquecer a casa.

Mulher ajusta termostato digital na parede enquanto segura uma chávena de bebida quente.

O termóstato pisca 19°C em laranja brilhante, como uma ordem silenciosa vinda de outra era.

Lá fora, a rua está escura, húmida e inquieta. Cá dentro, um casal na casa dos trinta está sentado no sofá, embrulhado em mantas separadas, a discutir em voz baixa sobre subir o aquecimento “só dois graus”.

Em cima da mesa de centro, uma fatura de energia está meia aberta, ao lado de uma caneca já fria. A discussão já não é apenas sobre dinheiro. É sobre sono, saúde, crianças constiparem-se, o bolor a começar a aparecer no canto do quarto.

Durante anos, a famosa “regra dos 19°C” foi repetida como evangelho. Hoje, cada vez mais especialistas dizem: esse número já não serve a nossa vida. E estão a começar a explicar porquê.

Porque é que 19°C já não se ajusta à vida real

A recomendação dos 19°C nasceu num mundo em que a energia era mais barata, as casas tinham mais fugas de calor e as pessoas se mexiam mais ao longo do dia. Era um compromisso entre conforto e poupança, não um número mágico gravado em pedra. No entanto, acabou impresso em folhetos do governo, citado em reportagens e repetido em grupos de WhatsApp da família como uma regra dura.

Esse número também partia de uma “pessoa média” que, na verdade, não existe. Corpo masculino padrão, peso padrão, metabolismo padrão, horários de trabalho padrão. Sem bebés. Sem pais idosos. Sem pessoas a trabalhar a partir de casa em Zoom durante oito horas sem saírem da cadeira. A vida mudou. O número ficou.

Veja-se o teletrabalho. Antes de 2020, muitas pessoas passavam as horas mais frias em escritórios, lojas, oficinas aquecidos. Agora, milhões passam-nas à mesa da cozinha, quase sem se mexer, com os dedos gelados no teclado. Um inquérito no Reino Unido, em 2023, concluiu que quase 40% dos trabalhadores em casa usavam regularmente casacos ou luvas no interior para evitar subir o aquecimento.

Uma família de Leeds, entrevistada por um jornal local, contou que tentou manter os 19°C no inverno passado. O filho de 6 anos começou a acordar a tossir às 3 da manhã. O pai, asmático, sentia aperto no peito. Ajustaram o termóstato para 21°C à noite no quarto da criança e os sintomas aliviaram. A fatura aumentou, sim. Mas também aumentou a tranquilidade.

Além disso, a habitação tornou-se mais extrema. Alguns apartamentos são bem isolados, quase demasiado estanques, retendo humidade e CO₂. Outros perdem calor como um crivo e parecem gelados mesmo a 20°C. Duas casas a “19°C” podem sentir-se radicalmente diferentes até aos ossos. Um estúdio na cave com janelas finas de vidro simples a 19°C não é o mesmo que um apartamento novo a 19°C com boa exposição solar e vidro triplo.

Médicos e cientistas da construção concordam agora numa coisa simples: um único número estático ignora biologia, arquitetura e realidade. O corpo humano reage não só à temperatura do ar, mas também ao movimento do ar, à humidade, à temperatura das paredes e ao tempo que passamos imóveis. Uma sala a 19°C com ar seco e paredes frias pode parecer muito mais dura do que uma sala a 21°C com superfícies mais quentes e humidade moderada. A regra antiga também ignorava grupos vulneráveis, como recém-nascidos, pessoas idosas e quem vive com doenças crónicas, que podem precisar de ambientes interiores mais quentes para se manterem saudáveis.

O que os especialistas recomendam hoje

A maioria dos especialistas fala agora em “intervalos” e “zonas” de temperatura, em vez de um único objetivo rígido. Tendem a colocar a faixa saudável de conforto entre cerca de 18°C e 22°C para a maioria dos adultos, com variações consoante a divisão e a pessoa. A nova base que muitos sugerem: por volta de 20–21°C nas áreas usadas durante o dia, com uma descida muito suave à noite - não um precipício.

O conselho moderno parece mais uma caixa de ferramentas do que um mandamento. Mais quente na casa de banho, um pouco mais fresco no corredor, calor extra em quartos de bebés ou de idosos frágeis. Pense nisto como afinar um instrumento, e não como carregar num interruptor de ligar/desligar. E, em vez de fixação num número, os especialistas sublinham a consistência. Menos oscilações grandes. Menos efeitos “sauna a 24°C e depois frigorífico a 16°C”, que stressam tanto o corpo como a caldeira.

Na prática, muitos consultores de energia doméstica sugerem este padrão como ponto de partida - não como lei: 20–21°C na área principal de estar, 18–19°C nos quartos de adultos saudáveis, 21–22°C para bebés, pessoas doentes ou muito idosas. As casas de banho podem ir brevemente mais alto quando estão a ser usadas. As cozinhas, aquecidas pela confeção, podem manter-se mais baixas. A humidade deve ficar, sempre que possível, entre 40–60% para evitar gargantas secas ou bolor a aparecer.

Nada disto significa esquecer a fatura ou o planeta. Significa mudar o foco: em vez de “quão baixo consigo forçar este número?”, a pergunta real passa a ser “qual é o intervalo mínimo confortável e saudável para o meu agregado, nesta casa concreta?”. Dá mais trabalho do que seguir cegamente os 19°C. Também é mais honesto.

Como aquecer de forma mais inteligente, não mais fria

Um método simples é criar o seu próprio “mapa de conforto” ao longo de uma semana. Comece nos 20°C na sala principal. Mantenha-se aí um dia inteiro. Repare como se sente em diferentes momentos: manhã, quebra a meio da tarde, noite tarde. No dia seguinte, experimente 19,5°C. No outro, 20,5°C. Passos pequenos, não saltos grandes.

Preste atenção aos detalhes: os pés ficam gelados mesmo com meias? O nariz está frio mas o corpo está bem? Tem dores de cabeça ou dor de garganta ao fim do dia? Muitas vezes isto é sinal de que há outra coisa a falhar - talvez humidade, correntes de ar ou ar viciado - mais do que o número no termóstato. Esta pequena experiência ajuda a encontrar o seu limiar real: o ponto em que o conforto começa a cair um pouco demais.

Muita gente também se esquece do “termóstato escondido”: a roupa. Não a mítica camisola de lã que os políticos adoram mencionar, mas as camadas que realmente aceita usar em casa numa terça-feira difícil. Sejamos honestos: ninguém faz isso todos os dias. A maioria começa com uma T-shirt e depois põe uma camisola leve quando arrefece. Se já está com meias grossas, um hoodie e debaixo de uma manta e mesmo assim treme a 19°C, o problema não é a sua força de vontade. É a sua configuração.

Os consultores de energia dizem muitas vezes que baixar o termóstato 1°C pode reduzir a fatura do aquecimento em cerca de 7%. Em teoria, é verdade. Na prática, a saúde mental e o sono também contam. O frio crónico dentro de casa tem sido associado a taxas mais altas de problemas respiratórios e stress, sobretudo em crianças e pessoas fragilizadas. Não há glória em poupar 80 euros por ano se alguém em casa acaba doente todo o inverno.

Outro erro: desligar totalmente o aquecimento durante longos períodos e depois ligá-lo no máximo quando já está a tremer. Esse padrão “ioiô” devora energia e mantém as paredes frias. Paredes frias significam mais condensação, mais risco de bolor e aquele frio que entra nos ossos que nenhum chá quente resolve. Um calor de base suave, combinado com reforços direcionados, costuma ser mais eficiente do que uma “expedição polar” diária seguida de uma tempestade tropical a 23°C.

Um físico da construção com quem falei resumiu assim:

“Deixe de perguntar se 19°C é bom ou mau. Pergunte se a sua casa está estável, seca e confortável para as pessoas que lá vivem. O resto são apenas números num ecrã.”

Para tornar isto mais concreto, aqui vai uma referência rápida que muitos especialistas usam hoje como guia flexível - não como lei rígida:

  • Sala de estar: 20–21°C na maior parte do dia, com cortinas fechadas à noite para reter o calor.
  • Quarto (adultos saudáveis): cerca de 18–19°C, com um bom edredão e baixa humidade.
  • Quarto (bebés, pessoas doentes ou idosas): 21–22°C, evitando correntes de ar junto à cama ou berço.
  • Casa de banho: quente quando em uso, depois voltar ao intervalo geral.
  • Casa toda: foco em secar zonas húmidas e arejar brevemente todos os dias, mesmo no inverno.

Repensar o conforto em conjunto

O fim do dogma dos 19°C não significa um vale-tudo em que todas as divisões brilham a 24°C durante todo o inverno. Significa aceitar que o conforto é pessoal, sazonal e profundamente ligado às nossas casas, corpos e rotinas. Significa falar tanto de humidade e ventilação como de graus. Significa aceitar que um recém-nascido e um corredor de maratonas de 30 anos não vão precisar da mesma regulação.

Num nível mais profundo, o debate sobre os 19°C revela algo sobre a forma como vivemos agora. Passamos mais tempo dentro de casa. Trabalhamos mais a partir de casa. A energia é cara e a ansiedade climática é real. As pessoas tentam fazer o que está certo e, ainda assim, dormir bem à noite. Quando os especialistas atualizam conselhos, o objetivo não é envergonhar quem seguiu os 19°C. É dar a todos ferramentas melhores do que um único número desatualizado.

Numa noite muito fria, com a chuva a bater na janela, aquele termóstato luminoso já não é um teste moral. É uma negociação entre o seu orçamento, a sua saúde e a sua realidade. Pode começar nos 19°C, se quiser. Pode subir um pouco se o seu filho estiver a tossir ou se o hálito fizer nevoeiro no quarto. Pode falar disso com os vizinhos, com os pais, com os amigos nos grupos.

O que emerge dessas conversas não é uma nova regra mágica, mas um sentido partilhado de que o conforto é permitido, que a saúde importa e que pequenas escolhas diárias se somam. Baixar estores ao anoitecer. Calçar meias a sério. Vedar a corrente de ar debaixo da porta. Ver como está o vizinho idoso do andar de baixo. O futuro do aquecimento parece menos um alvo rígido e mais um equilíbrio vivo, em movimento, que aprendemos a ajustar em conjunto.

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
19°C já não é uma norma universal A regra vem de um contexto antigo que já não reflete o teletrabalho, as habitações modernas e a diversidade de perfis Permite adaptar o aquecimento sem culpa cega
Raciocínio por intervalos de conforto A maioria dos especialistas aponta agora para 18–22°C conforme a divisão e os ocupantes Permite configurar cada divisão de acordo com os usos reais
Estabilidade em vez de “ioiô” térmico Pequenas variações, menos desligamentos totais, gestão da humidade e das superfícies frias Reduz faturas, risco de bolor e fadiga física

FAQ

  • 19°C em casa é mesmo demasiado frio? Para muitos adultos saudáveis, 19°C pode ser suportável na sala de estar com roupa adequada, mas costuma ser no limite para quartos, bebés, idosos e para quem fica sentado muitas horas sem se mexer.
  • Que temperatura recomendam os médicos hoje? A maioria dos especialistas em saúde e habitação sugere cerca de 20–21°C nas áreas principais de estar, 18–19°C nos quartos de adultos e 21–22°C para bebés, pessoas doentes ou frágeis.
  • Subir o termóstato 1°C vai fazer a fatura disparar? Vai aumentar o consumo, mas muito menos do que muitos temem; em muitos casos, o pequeno custo extra compensa se proteger a saúde e o sono.
  • É melhor desligar o aquecimento quando saio? Em ausências curtas, sim; em ausências longas, uma temperatura de fundo mais baixa costuma ser melhor do que deixar a casa gelar e depois reaquecer tudo do zero.
  • Como posso sentir-me mais quente sem subir demasiado o termóstato? Use cortinas grossas, vede correntes de ar, vista camadas adequadas para interior, evite ter os pés em chão frio, controle a humidade e aqueça as divisões que realmente usa em vez da casa toda.

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