Nem sempre o inverno em Portugal parece “duro” dentro de casa, mas o frio húmido, a condensação e as correntes de ar conseguem arrefecer um gato mesmo quando a divisão não parece gelada. Isto nota-se sobretudo em sénior, bebés, doentes, muito magros e de pelo curto.
A ideia é simples: diminuir a perda de calor e dar opção (um refúgio quente e seco + um local mais fresco), sem recorrer a “atalhos” que aumentam o risco.
O frio em casa: onde os gatos perdem calor sem darmos por isso
Muitos gatos aguentam temperaturas moderadas, mas arrefecem quando ficam horas parados em superfícies frias/húmidas. Em muitas casas portuguesas (chão cerâmico, paredes exteriores frias, janelas pouco estanques), isto acontece mesmo quando “não parece assim tão frio”.
Pontos cegos frequentes:
- chão frio (sobretudo de madrugada/manhã)
- correntes de ar (janelas/portas, caixas de estores, corredores)
- cama encostada a vidro, parede exterior ou perto de entradas
- divisões húmidas (condensação e cheiro a mofo)
Regra prática: se um local é desagradável descalço ou costuma ganhar humidade, para o gato tende a ser pior (ele dorme horas sem mexer e gasta energia só para se manter quente). Um higrómetro pode ajudar: em muitas casas, manter a humidade relativa por volta de 40–60% melhora o conforto e reduz o efeito do “frio húmido”. Ventile de forma curta e eficaz (5–10 min com janelas opostas), evite deixar janelas “em basculante” durante horas, use exaustor ao cozinhar/na casa de banho, ou um desumidificador (tendo em conta o impacto na eletricidade).
O que realmente ajuda (e é fácil de manter)
1) Uma cama certa no sítio certo
A cama vale mais pelo local e pelo isolamento do que pelo preço. Prefira um canto interior, fora de passagem, longe de janelas/portas e de paredes exteriores.
O essencial: tirar do chão (cadeira/banco/prateleira baixa) ou, no mínimo, pôr um tapete + manta dobrada por baixo para cortar o frio do pavimento. Camas com laterais altas/“iglu” ajudam a travar correntes e a criar um microclima (ótimo para gatos que gostam de “toca”). Materiais como polar/lã sintética retêm o calor e secam mais depressa em casas húmidas.
Alternativa simples: uma caixa de cartão com manta. O cartão isola e reduz a circulação de ar - mas só resulta se estiver tudo bem seco e estável (manta húmida perde isolamento e arrefece).
2) Mais calor com segurança (sem improvisos perigosos)
Botija de água quente: pode ser útil se estiver bem fechada, envolvida numa toalha grossa e colocada de modo a o gato conseguir afastar-se. Deve ficar morna ao toque (teste com a mão onde ele encosta a barriga). Evite água a ferver e confirme se há fugas antes/depois; uma botija velha é um risco real.
Almofada térmica elétrica: escolha, de preferência, uma própria para animais (temperatura controlada e desligamento automático). Para reduzir acidentes: mantenha cabos fora do alcance (mordidelas são comuns), use potência baixa/média e supervise as primeiras utilizações. Não “abafe” com demasiadas camadas - pode acumular calor. Atenção extra a gatos sénior, muito magros ou com sensibilidade reduzida: queimaduras por calor baixo e prolongado podem acontecer.
Evite atalhos: mantas/almofadas elétricas para humanos e aquecedores sem termóstato podem aquecer em excesso. Regra útil: aqueça um ponto (refúgio), não a casa inteira - e mantenha sempre uma alternativa mais fresca. Alguns gatos ficam “colados” à fonte de calor e podem sobreaquecer ou desidratar.
Em aquecedores a gás/braseiras/lareiras, garanta ventilação e nunca deixe o gato dormir encostado. Se usa combustão dentro de casa, um detetor de monóxido de carbono pode aumentar a segurança (não substitui a ventilação).
3) Água e comida: o frio muda o consumo
No inverno, alguns gatos bebem menos (a água parece mais fria), o que pode agravar problemas urinários/renais em gatos predispostos.
O que costuma resultar sem complicar:
- água à temperatura ambiente, em 2–3 locais
- tigelas longe de correntes; muitas vezes resulta separar a água do comedouro
- fonte, se o seu gato preferir água corrente
- reforçar húmidos (saquetas/latas) ou juntar um pouco de água ao húmido, se tolerar
Na alimentação, pode haver aumento de apetite. O erro é “compensar” em excesso e o gato ganhar peso depressa (comum em esterilizados e sénior). Pese com regularidade (até uma vez por semana, sempre na mesma balança). Como guia, um aumento rápido (ex.: ~5% em poucas semanas) costuma justificar ajuste e, se continuar, orientação do veterinário.
Gatos com acesso ao exterior: o plano B tem de existir
O risco aumenta quando o gato fica preso lá fora (porta fechada, garagem trancada, varanda sem abrigo) ou dorme em zonas húmidas. Se o seu gato sai, assegure um abrigo seco e uma rotina previsível para entrar (horários consistentes ajudam).
Abrigo simples e eficaz:
- caixa resistente com abertura pequena (corta o vento)
- interior com palha seca (isola melhor do que mantas quando há humidade; palha, não feno)
- elevado do chão e protegido da chuva/vento (encostar a uma parede ajuda; entrada virada para longe do vento dominante)
Detalhe importante: carros. Em noites frias, alguns gatos procuram calor no compartimento do motor. Hábito útil: bater no capot, fazer barulho e espreitar rapidamente antes de ligar.
Erros a evitar (os mais comuns - e os que fazem pior do que o frio)
A maioria nasce de boa intenção - mas repete-se todos os anos.
1) “Ele desenrasca-se”: subestimar sinais subtis
Nem sempre há tremores. Esteja atento a apatia fora do habitual, movimentos mais lentos, orelhas/patas muito frias ao toque (comparando com o normal do seu gato), procura insistente de calor (colado ao aquecedor, escondido sem sair), tremores, rigidez ou respiração mais lenta.
Se suspeitar de hipotermia, aqueça gradualmente (mantas + divisão morna e seca) e contacte o veterinário. Evite banho quente, secador muito perto ou calor direto intenso (pode piorar o estado e causar queimaduras).
2) Aquecedores e lareiras sem barreiras
Aquecedores, lareiras, salamandras e recuperadores são ímanes para gatos. O risco não é só queimadura: pode haver desidratação, sobreaquecimento, pelo chamuscado e têxteis a incendiar.
Use barreiras, mantenha distância e não deixe mantas/toalhas a tocar em fontes de calor. Atenção extra a cabos (almofadas/placas aquecidas): organize e proteja para não serem roídos.
3) Anticongelante e produtos de inverno: o perigo invisível
O anticongelante é extremamente tóxico e pode ter sabor adocicado. Pequenas quantidades podem causar falência renal. O mesmo pode acontecer com alguns descongelantes e certos produtos de limpeza.
- verifique fugas no carro e na garagem
- limpe derrames imediatamente (e lave a zona)
- nunca deixe recipientes abertos “só um minuto”
Se houver suspeita de ingestão, é urgência veterinária - não espere por sintomas.
4) Tosquiar ou dar banho “para ficar mais limpo”
No inverno, tosquiar reduz o isolamento do pelo. Banhos podem baixar a temperatura corporal e aumentar o stress, sobretudo em gatos sénior ou com doença crónica. Se precisar de higiene, prefira limpeza localizada com pano morno; seque bem (barriga e patas) e mantenha o gato num ambiente aquecido depois.
5) Abrigos com mantas húmidas (parece conforto, vira frigorífico)
No exterior, mantas absorvem humidade e isolam pior. Em abrigo de rua, a palha tende a funcionar melhor (e deve ser substituída quando fica húmida). Dentro de casa, mantas são ótimas - desde que secas e trocadas com regularidade.
Um mini-checklist de inverno (para colar no frigorífico)
- A cama está longe de correntes de ar e do chão frio?
- Há um “local morno” e outro mais fresco (o gato escolhe)?
- A água está acessível e o gato está a beber normalmente?
- Se sai à rua, existe abrigo seco e rotina de entrada?
- Produtos tóxicos (anticongelante, detergentes) estão fora de alcance?
Sinais de alerta: quando não é “só frio”
No inverno, alguns problemas podem parecer “preguiça da estação”: artrite (mais dor e menos movimento), infeções respiratórias, agravamento de doença renal (por beber menos) ou perda de peso em gatos sénior.
Se notar uma alteração persistente por mais de 24–48 horas (sobretudo em sénior) - ou se houver recusa de água/comida, dificuldade respiratória, vómitos repetidos ou dor evidente - contacte o veterinário. Muitos gatos “aguentam” algum tempo e depois pioram depressa.
| Situação | O que fazer já | Evitar |
|---|---|---|
| Gato muito apático e frio ao toque | Aquecer gradualmente e contactar veterinário | Calor direto intenso, banho quente |
| Gato com acesso ao exterior | Abrigo seco + rotina de entrada | “Ele aguenta”, mantas húmidas no abrigo |
| Mais apetite e menos água | Monitorizar peso + incentivar hidratação | Aumentos grandes de comida sem controlo |
FAQ:
- Os gatos precisam de roupa no inverno? Em geral, não. Alguns gatos sem pelo, muito idosos ou de pelo muito curto podem beneficiar, mas a roupa deve permitir movimento, não apertar e não substituir um refúgio morno e seco. Se o gato tentar tirar, ficar stressado ou se prender, não use.
- É seguro usar uma botija de água quente na cama do gato? Pode ser, desde que esteja bem fechada, envolvida numa toalha grossa e colocada de forma a o gato poder afastar-se. Teste a temperatura com a mão antes e verifique se não há fugas.
- Quanto frio é “demais” para um gato dentro de casa? Depende do gato e de humidade/correntes. Se precisa de casaco dentro de casa, o chão está gelado e o gato procura calor de forma insistente, costuma beneficiar de um refúgio mais quente, isolado e seco.
- O meu gato pede mais comida no inverno: devo dar? Pode ser normal, mas ajuste com critério. Pese o gato regularmente e fale com o veterinário se houver aumento rápido de peso ou se o gato for sénior/esterilizado.
- Que sinais indicam urgência? Tremores intensos, fraqueza marcada, gengivas pálidas, respiração lenta, desorientação ou suspeita de ingestão de anticongelante/descongelante justificam urgência veterinária imediata.
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