A nação do Sul da Ásia assinou uma Carta de Intenções (LOI) para negociar a aquisição de caças Eurofighter Typhoon com a italiana Leonardo, abrindo caminho ao primeiro grande acordo de aviões de combate ocidentais e a uma eventual redução da dependência de material chinês e russo.
Bangladesh aproxima-se de um acordo para o Eurofighter
A Força Aérea do Bangladesh (BAF) confirmou a assinatura da LOI com a Leonardo, em Daca. O documento dá início a conversações formais sobre preço, configuração, armamento e calendário de entregas.
Uma LOI é um passo formal importante, mas não é um contrato de compra.
A assinatura decorreu na presença do Marechal do Ar Hasan Mahmood Khan e do embaixador de Itália no Bangladesh, Antonio Alessandro. Na prática, este tipo de documento funciona como sinal político, ajuda a alinhar requisitos e permite ao fornecedor preparar uma proposta “fechada” (aeronaves + treino + apoio + armas), mas o processo pode falhar por diferenças de preço, condições de exportação ou financiamento.
Relatos locais referem até 16 aeronaves, possivelmente em lotes ao longo de vários anos. Para um país com orçamento de defesa apertado, o ponto mais sensível tende a ser menos a compra inicial e mais a sustentação: sobresselentes, revisões, motores, armamento e horas de voo ao longo de décadas.
Porquê o Eurofighter, e porquê agora?
A frota de caças do Bangladesh combina sobretudo plataformas chinesas e russas, algumas já envelhecidas, com manutenção mais exigente e margem de modernização reduzida. A BAF procura um caça que se mantenha relevante até à década de 2040, com radar, sensores e capacidades de guerra eletrónica superiores.
O Eurofighter Typhoon (consórcio de Itália, Alemanha, Reino Unido e Espanha) é um bimotor multirole concebido para superioridade aérea e ataque ao solo. No mercado, disputa espaço com opções como F-16/F-15, Rafale e J-10C.
Fontes regionais têm apontado o Chengdu J-10C como alternativa forte. Escolher um caça europeu tenderia a puxar o ecossistema para padrões ocidentais (doutrina, treino, segurança de informação e logística), o que pode reforçar a interoperabilidade - mas também aumentar exigências de infraestrutura e processos.
Voos de teste em Itália ajudaram a moldar a decisão
No início do ano, uma delegação da BAF visitou as instalações da Leonardo em Turim. Houve voos, simuladores e contacto com manutenção e formação - uma etapa comum em competições de caças, por expor limitações reais (carga de trabalho do piloto, integração de sensores, ergonomia e procedimentos).
Os simuladores e voos permitem comparar “na mão” radar, sensores e manobrabilidade, mais do que brochuras.
O Bangladesh já opera helicópteros AW109 e AW139 da Leonardo, o que facilita a relação com o fabricante (suporte, cultura de treino, cadeia de fornecimento). Ainda assim, a transição para caças supersónicos costuma exigir um salto: hangares adequados, capacidade de testes de aviônica, armazenamento seguro de munições e um pipeline de formação mais longo para técnicos.
Quem constrói o Eurofighter Typhoon?
O Eurofighter é um programa europeu conjunto, com quatro parceiros principais:
- Itália - representada pela Leonardo, que lidera a campanha no Bangladesh
- Alemanha - via Airbus Defence and Space
- Reino Unido - via BAE Systems
- Espanha - também via Airbus
Cada país fabrica secções relevantes e opera o jacto. Um detalhe prático: uma exportação normalmente requer aprovações de vários governos do consórcio (licenças e controlos de exportação), o que pode influenciar prazos, configuração e armamento autorizado.
| Facto do Eurofighter | Detalhe |
|---|---|
| Total de jactos encomendados | 769 aeronaves |
| Países operadores | 10 nações na Europa e no Médio Oriente |
| Funções | Defesa aérea, ataque ao solo, reconhecimento |
| Clientes de exportação | Áustria, Kuwait, Arábia Saudita, Qatar, Omã |
Uma venda ao Bangladesh abriria uma nova frente no Sul da Ásia, historicamente mais disputada por EUA, Rússia e China.
Bangladesh torna-se um novo tipo de cliente
Se evoluir para contrato, Daca tornar-se-ia o primeiro comprador do Eurofighter fora da Europa e do Médio Oriente. Hoje, a lista de operadores inclui Reino Unido, Itália, Espanha, Alemanha, Áustria, Kuwait, Arábia Saudita, Qatar e Omã.
Entrar num “clube” de operadores facilita treino, peças e exercícios conjuntos - mas também cria dependência do mesmo ecossistema.
Para o Bangladesh, o peso é militar e diplomático: maior proximidade a países europeus, acesso a cursos e padrões de formação, e potencial participação em exercícios com forças que já usam o Typhoon. Para a Leonardo/consórcio, seria uma validação importante na Ásia, onde também existem campanhas noutros países.
Como os jactos poderiam transformar a força aérea do Bangladesh
Mesmo 12–16 Typhoon não fazem do Bangladesh um “peso pesado”, mas podem elevar o patamar operacional: maior alcance de deteção, melhor consciência situacional e resposta mais rápida.
Com radar e sensores modernos, o Typhoon pode seguir múltiplos alvos e partilhar dados via datalinks (dependendo do pacote). Em armamento, a oferta típica inclui mísseis ar-ar além do alcance visual e munições guiadas; armas stand-off podem estar disponíveis, mas dependem de configuração, licenças e orçamento.
A dissuasão cresce sobretudo quando a capacidade é sustentada: não basta ter aeronaves, é preciso pilotos qualificados, munições suficientes, disponibilidade técnica e horas de voo. Um erro frequente em aquisições é subfinanciar a fase “invisível” (sobresselentes, manutenção e treino), o que reduz rapidamente a prontidão.
O Bangladesh também investe em vigilância costeira e meios navais. Caças com pods de designação e ligação a sistemas de comando e controlo podem apoiar patrulha marítima, reconhecimento e resposta rápida na Baía de Bengala - desde que existam regras claras de emprego e coordenação com a Marinha e sensores em terra.
Formação, custo e condicionantes políticas
Caças modernos têm um custo total elevado ao longo da vida útil. Regra prática em muitos programas: operar e manter durante 20–30 anos pode custar várias vezes o preço de compra, sobretudo quando entram revisões de motores, atualizações de software/sensores e armamento.
A formação também pesa: conversão de pilotos, instrutores, controladores e técnicos; simuladores; inglês técnico; e procedimentos de segurança para dados sensíveis. Em muitos casos, as primeiras aeronaves servem sobretudo para criar escola e doutrina antes de “encher” esquadras.
Daca deverá negociar financiamento, pacote logístico (sobresselentes e apoio inicial), acesso a modernizações e, possivelmente, manutenção local. Esses pontos tendem a ser tão relevantes quanto o número de aeronaves.
Há ainda o fator político: vendas europeias costumam incluir controlos de utilização final, limitações de reexportação e condições de licenciamento de armamento. Isso pode afetar que mísseis/bombas entram no pacote e com que prazos.
O que significa realmente uma Carta de Intenções
Para quem não acompanha aquisições, “Carta de Intenções” pode soar a compra fechada, mas é sobretudo uma formalização de que as partes querem negociar de forma séria.
Uma LOI costuma:
- delimitar um perímetro (quantidade aproximada e capacidades desejadas)
- estabelecer um roteiro de negociação (preço, prazos, treino, apoio, armas)
- ajudar a reduzir incerteza, mas sem obrigação final de compra
A LOI afunila opções e dá impulso político, mas o desfecho decide-se nas cláusulas contratuais.
É comum estas negociações demorarem (por orçamento, ciclos políticos, alterações de ameaça e condições de exportação). O processo pode acelerar se houver financiamento claro e consenso interno; pode abrandar com pressões económicas.
Cenários possíveis se o acordo avançar
Mesmo com um acordo rápido, as entregas iniciais normalmente só chegam alguns anos após a assinatura, devido a produção, integração de requisitos e formação.
Um caminho provável é faseado: um primeiro lote para treino (pilotos e manutenção, muitas vezes com períodos na Europa), seguido de um segundo lote quando a infraestrutura local estiver pronta e a taxa de disponibilidade estiver estabilizada. Em paralelo, surgem decisões “difíceis” que fazem ou desfazem a capacidade: quantas munições comprar, que nível de guerra eletrónica incluir, e quantos sobresselentes garantir para evitar aeronaves paradas.
Na região, vizinhos observam e ajustam: uns podem acelerar modernizações; outros podem usar o exemplo para negociar melhores condições com fornecedores alternativos.
Riscos, benefícios e o que se segue
Benefícios para o Bangladesh: salto qualitativo na defesa aérea e na resposta marítima, mais opções de cooperação com parceiros europeus, e uma plataforma capaz de receber upgrades (software, sensores e armas) ao longo do tempo.
Riscos principais: endividamento, custos de sustentação e dependência política/logística. Choques económicos podem forçar cortes em horas de voo e manutenção; mudanças de governo podem adiar ou reduzir a compra; tensões com países do consórcio podem afetar licenças, peças e formação.
A decisão também “amarra” o futuro: quando uma força aérea investe numa cadeia de treino, ferramentas, munições e processos de um ecossistema, mudar depois é caro e disruptivo. Por agora, a LOI indica uma abertura clara de Daca à Europa - o desfecho dependerá do equilíbrio entre orçamento, pacote de capacidades e condições políticas na negociação.
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