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Renault confirma entrada na defesa; fábrica de Cléon, na Normandia, pode produzir motores para drones militares.

Homem em oficina examinando peça de motor com drone ao fundo, vestindo macacão azul e luvas de segurança.

De carros de família a drones de combate

A Renault confirmou que está a desenvolver um projeto de drones militares em parceria com a Turgis Gaillard, empresa francesa ligada à indústria aeroespacial e de defesa. O objetivo, segundo a própria Renault, passa por criar uma cadeia de abastecimento “nacional” para estes sistemas, com foco na industrialização - mais produção e menos “prototipagem permanente”.

De acordo com o L’Usine Nouvelle, o valor total do contrato poderá atingir cerca de 1 mil milhão de euros ao longo de dez anos. A participação da Renault será sobretudo industrial: práticas de fabrico, disciplina de custos, capacidade de escalar e organizar fornecedores - e menos a componente de conceção de armamento.

A Renault quer transportar métodos automóveis de produção em grande escala para fabricar drones militares avançados a menor custo e com prazos mais apertados.

Os drones abrangidos por este acordo destinam-se às Forças Armadas francesas e são descritos como “munições errantes” (loitering munitions) de longo alcance, operadas remotamente: drones táticos capazes de vigiar, recolher informação e, se necessário, atacar.

O detalhe que costuma decidir o sucesso: passar de “série pequena” (defesa) para “volume” (automóvel) exige alinhar requisitos de rastreabilidade, testes ambientais (vibração/temperatura), cibersegurança e controlo de configuração - domínios onde a exigência tende a ser mais rígida do que na indústria automóvel civil.

Projeto “Chorus”: uma nova geração de drones táticos franceses

O programa tem, por agora, o nome de código “Chorus”. Enquadra-se no esforço de França para acelerar capacidades que ganharam relevância com a guerra na Ucrânia, onde os drones se tornaram centrais para vigilância, correção de fogos e ataques.

As autoridades francesas procuram sistemas que possam ser produzidos depressa e em quantidade. Isso favorece parceiros com experiência em:

  • produção em massa (linhas e cadências estáveis),
  • controlo de custos (padronização e compras),
  • cadeias de abastecimento (fornecedores, qualidade, prazos).

O L’Usine Nouvelle indica que o Chorus deverá ser produzido com processos inspirados no automóvel: desenho modular, peças normalizadas e montagem otimizada para volume - em vez de pequenas séries.

Trade-off real: a padronização acelera e reduz custos, mas pode travar alterações rápidas no terreno. Em drones, conseguir atualizar sensores, ligações de dados e software sem redesenhar o hardware é, muitas vezes, tão crítico quanto a aerodinâmica.

O Aarok da Turgis Gaillard como ponto de partida

O envolvimento da Renault liga-se ao Aarok, um drone de grande dimensão desenvolvido pela Turgis Gaillard. Segundo a imprensa francesa, terá realizado o primeiro voo de teste em setembro de 2025, em Blois, com a presença da agência francesa de aquisições de defesa (DGA).

A plataforma foi concebida para atuar como sensor e como vetor de ataque. Pode retransmitir comunicações (criando uma “bolha” de conectividade para forças no terreno) e transportar armamento de longo alcance.

Engenheiros da Renault redesenharam partes do drone com métodos da indústria automóvel para baixar custos e melhorar a facilidade de fabrico.

Uma equipa dedicada de cerca de 30 pessoas dentro da Renault terá revisto a arquitetura para facilitar a produção em série: simplificação de estruturas, adaptação a ferramental existente e desenho de fluxos de montagem mais próximos dos usados em veículos.

Onde costuma haver mais atrito: em aeronáutica/defesa, pequenas alterações de componente podem implicar requalificação, documentação e testes adicionais. A promessa de “fácil de fabricar” só se concretiza se o desenho já nascer preparado para essas regras.

Fábrica de Cléon sob os holofotes, mas ainda sem confirmação formal

A questão sensível é onde os drones serão montados - e, sobretudo, onde serão feitos os motores. O L’Usine Nouvelle aponta dois locais: Le Mans e a unidade Renault Ampère em Cléon (Normandia).

A Renault não confirmou fábricas. Questionada sobre Le Mans e Cléon, a empresa disse não poder validar localizações nesta fase, referindo consultas em curso com representantes dos trabalhadores.

A empresa diz que tem de cumprir primeiro o processo interno com as comissões de trabalhadores antes de revelar que fábricas receberão as novas linhas de produção de defesa.

Ainda assim, há sinais de movimentação. Em Le Mans, sindicatos referiram uma reunião extraordinária do Comité Social e Económico (CSE) a 20 de janeiro para apresentar um projeto industrial ligado ao chassis do futuro drone. Em Cléon, não terá existido ainda uma reunião formal equivalente nem qualquer plano apresentado aos trabalhadores.

Realidade prática (muitas vezes ignorada): uma linha “de defesa” costuma exigir zonas de produção e logística mais controladas (acessos, segregação de peças, documentação, proteção de dados). Isso pode implicar investimento e alterar rotinas - mesmo numa fábrica com elevada maturidade industrial.

O que está em jogo para a unidade de Cléon?

A Renault Ampère em Cléon emprega cerca de 3.100 pessoas. É conhecida por motores, caixas de velocidades e fundição, e está ligada à transição para grupos motopropulsores elétricos. Já produz motores para a nova berlina elétrica Alpine e deverá receber uma academia de formação em eletrónica de potência no segundo semestre de 2026.

A possibilidade de vir a produzir motores para drones de combate está a gerar tanto curiosidade como resistência.

  • Atividade principal hoje: motores elétricos e térmicos, caixas de velocidades, peças de fundição
  • Força de trabalho: ~3.100 trabalhadores
  • Projeto futuro: academia de formação em eletrónica de potência a partir do final de 2026
  • Novo papel potencial: motores para drones militares (não confirmado)

O sindicato CGT em Cléon já declarou oposição de princípio ao fabrico de sistemas de armas. Diz não ter recebido planos concretos sobre drones, mas mantém a rejeição de uma mudança para armamento.

Nota técnica útil: “motor para drone” pode significar realidades muito diferentes (elétrico, térmico, híbrido). Em muitos drones táticos, o compromisso é claro: elétrico tende a ser mais silencioso, mas com menor autonomia; térmico costuma oferecer mais alcance e tempo de voo, à custa de assinatura acústica/infra-vermelha e manutenção.

Know-how automóvel ao serviço de prioridades de defesa

A Renault defende que dispõe de competências específicas para este tipo de iniciativa: conceção para fabrico, industrialização e produção em volume de alta tecnologia, com metas exigentes de qualidade, custo e prazos.

Levar a lógica de uma fábrica automóvel para os drones pode torná-los mais baratos, mais normalizados e disponíveis em números muito superiores aos que os programas de defesa tradicionais conseguem.

Em vários países europeus, o problema repete-se: como passar de equipamento feito “à medida” e lentamente para sistemas reponíveis em conflitos prolongados. Parcerias com grandes industriais civis são uma das respostas - mas trazem desafios de segurança e governança (propriedade intelectual, proteção de dados, controlo de exportações, fornecedores críticos).

O Ministério das Forças Armadas francês lançou um “pacto de drones aéreos” para mobilizar a indústria. A Renault já tinha reconhecido, em junho de 2025, que fora contactada sobre produção de drones.

Segundo o L’Usine Nouvelle, o primeiro lote do Chorus poderá sair no primeiro semestre de 2026: cerca de dez aeronaves para avaliação pela DGA, antes de qualquer subida para volumes maiores.

Regra de bolso de programas deste tipo: a fase “10 unidades para avaliação” raramente é apenas montagem. Normalmente inclui correções de desenho, ajustes de processo, qualificação de fornecedores e validação de fiabilidade - o que pode mexer tanto no calendário como no custo unitário inicial.

Emprego, ética e uma paisagem industrial em mudança

Para regiões como a Normandia e a Sarthe, uma nova atividade ligada à defesa coloca dilemas claros.

Por um lado, um contrato de longo prazo na ordem dos mil milhões pode sustentar emprego, financiar reconversão e manter fábricas ocupadas num período de transição (eletrificação e reorganização industrial). Por outro, o debate moral sobre converter capacidade automóvel em capacidade de armamento está a intensificar-se.

Sindicatos como a CGT alertam para uma deriva para “economia de guerra”. Autarcas e eleitos locais tendem a destacar emprego e autonomia estratégica europeia. O equilíbrio entre estas pressões influenciará a velocidade e a escala do projeto.

Aspeto Benefício potencial Principal preocupação
Empregos e competências Estabiliza o emprego, nova formação técnica Dependência de orçamentos de defesa
Capacidade industrial Melhor utilização de fábricas e ferramental existentes Possível desvio de recursos de projetos civis
Ética e política Defesa nacional, soberania estratégica Oposição à produção de armamento entre trabalhadores e público

O que significa realmente “munição errante” (loitering munition)

“Munição errante” descreve drones a meio caminho entre míssil e aeronave: conseguem permanecer no ar, observar uma área e só atacar quando um alvo é identificado/confirmado por um operador (ou, em alguns conceitos, por automatismos - o que aumenta a controvérsia).

As forças armadas recorrem a estes sistemas para atacar radares, artilharia ou postos de comando com precisão e flexibilidade, sobretudo quando o tempo entre deteção e ataque é curto. Em paralelo, os riscos para civis e a escalada são uma preocupação, especialmente se estes sistemas se tornarem baratos e muito disseminados.

Se a Renault e a Turgis Gaillard conseguirem aproximar os custos deste segmento dos da indústria automóvel, o resultado provável é maior disponibilidade e stocks mais elevados. Isso pode reforçar a dissuasão - mas também pode baixar o limiar político de uso, ao reduzir o “custo” percebido de cada emprego.

O que acompanhar nos próximos meses

Três pontos deverão clarificar o rumo do projeto:

  1. Um anúncio formal da Renault sobre as fábricas envolvidas (e se Cléon ficará com motores).
  2. A reação de sindicatos e comunidades locais quando existirem calendários, necessidades de contratação e detalhes sobre condições de trabalho.
  3. O plano estratégico do grupo, esperado para março de 2026 com o novo CEO, que deverá indicar se a defesa será um ramo periférico ou um eixo de crescimento.

Se o Chorus mantiver o calendário referido, a França poderá ter drones táticos a sair de linhas “ao estilo automóvel” já no próximo ano - um sinal de como a lógica industrial e a pressão geopolítica estão a remodelar a produção de defesa na Europa.

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