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Em Singapura, luxo não é ter um Ferrari ou Lamborghini. O verdadeiro luxo é simplesmente ter um carro, mesmo que seja mau.

Carro azul envelhecido em exposição com placa "COE PAID", mãos segurando chaves e recibo em primeiro plano.

O taxista riu-se quando lhe apontei para o Lamborghini amarelo ao nosso lado, parado num semáforo na Orchard Road. “Brinquedo de turista”, disse, sem tirar os olhos do trânsito. “Aqui, os realmente ricos conduzem… Toyota.”

Um autocarro passou cheio. Uma família esperava na paragem; o pai olhava para o relógio. O Lamborghini avançou uns metros e voltou a travar.

Singapura parece feita de vidro e ordem. Mas o estatuto mais difícil de comprar não é um motor italiano.

É ter um carro. Qualquer carro.

Onde um Honda amassado vence um Ferrari acabado de sair do stand

Em Singapura, o luxo pode inverter-se: um Honda antigo, estacionado debaixo de um bloco HDB (habitação pública), pode sinalizar mais “capacidade” do que um Ferrari junto à Marina Bay.

No papel, ambos são carros. Na prática, um deles indica que atravessou um dos sistemas de propriedade automóvel mais caros e restritivos.

O centro do sistema é o COE (Certificate of Entitlement): uma licença para ter carro, comprada em leilão e, em regra, válida por 10 anos. Em muitos períodos, o COE pode custar tanto ou mais do que o veículo - por isso um sedan banal pode ter um preço que, para quem vive em Portugal, parece irreal.

E não é “comprar e acabou”. Ter carro vira uma despesa contínua:

  • COE + impostos de registo (por vezes muito elevados)
  • seguro
  • estacionamento (frequentemente pago em casa e no trabalho)
  • manutenção e consumíveis
  • portagens urbanas/congestionamento (ERP), conforme zona e hora

Regra prática: a compra é só o bilhete de entrada. O que separa quem “consegue” de quem “aguenta” é a soma de custos mensais + uma almofada para imprevistos (pneus, bateria, pequenas reparações, franquias do seguro).

O Ferrari faz barulho. O Honda velho diz outra coisa: “eu consigo pagar isto - e manter.”

O estatuto invisível do “carro de tio”

Para ver estatuto discreto em Singapura, basta descer a um parque subterrâneo de um HDB numa noite húmida: filas de carros modestos (muitos japoneses), pintura cansada, autocolantes a desfazer, cortinas de sol para bebés.

Os “carros de tio” são luxo na logística: escola, compras grandes, aeroporto, visitas a familiares - sem depender de horários. Não impressionam numa foto. Ganham no dia-a-dia.

A frase “Comprámos o nosso carro” costuma vir com subtexto: anos a fazer contas e a trocar outras coisas (férias, refeições fora, upgrades em casa) por tempo e controlo.

Um colega contou-me a primeira vez que foi buscar a mãe idosa num Mazda usado que acabara de comprar. Ela sempre andara de autocarro, até para consultas. Nesse dia, sentou-se no lugar do passageiro, passou os dedos pelo tablier e perguntou, baixinho: “Então este é o teu carro?”

Em 20 minutos, estavam em casa. De transportes, aquele trajeto podia facilmente passar de uma hora, com trocas e espera.

Ninguém filmou. Mas aquela boleia - num carro nada “de luxo” - foi privilégio puro: menos cansaço, menos fricção, mais margem no dia.

Viver sem carro num sistema obcecado por carros

Para perceber o valor de ter carro em Singapura, ajuda viver um tempo sem um. As fricções acumulam-se: planear pelo MRT (metro), contar passos até à saída certa, ajustar jantares ao último comboio, apanhar chuva entre ligações.

Depois entra-se no Vios gasto de um amigo e percebe-se que ele vive outra versão da cidade: porta-a-porta, mais flexibilidade, menos dependência de horários.

E aparece o dilema pouco romântico: faz sentido investir muito num bem que desvaloriza e que, no fim do COE, obriga a renovar, exportar ou abater? Ou ficar nos transportes, poupar, e aceitar que em dias difíceis o “custo emocional” pesa mais do que a teoria?

Erros comuns (e caros):

  • Comprar no pico do COE e normalizar uma prestação demasiado alta
  • Subestimar custos que não vêm no anúncio (estacionamento, ERP, pneus, bateria, sinistros/franquias)
  • Confundir “consigo comprar” com “consigo sustentar 10 anos”
  • Esquecer o “fim do relógio”: quando o COE acaba, a decisão não é opcional - tem de renovar ou sair do sistema

A escritora e comentadora singapurense Kirsten Han resumiu uma vez o paradoxo: “Aqui, ter um carro não é para exibir. É para comprar de volta fatias do teu próprio tempo.”

Cinco formas práticas de decidir (sem romantizar):

  • Repare nos seus “pontos de dor”: crianças, turnos tardios, cuidar de pais, deslocações fora do eixo do MRT
  • Faça um teste de 30 dias: anote cada “se eu tivesse carro…” e marque no fim o que era necessidade vs conforto
  • Compare liberdade por euro: um carro discreto que usa sem medo pode valer mais do que um “chamativo” que evita conduzir
  • Faça contas como em Portugal (IUC/seguro/inspeção), mas acrescente o que em Singapura pesa mais: estacionamento e custos de acesso/uso (COE/ERP)
  • Aceite o lado emocional - e dê-lhe um teto: quanto tempo/descanso está a comprar, e que outras prioridades está a vender

Redefinir luxo numa cidade de 728 km²

Com o tempo, “luxo” em Singapura deixa de ser barulho e passa a ser margem. Os realmente ricos muitas vezes não querem supercarros: têm vans familiares com motorista, ou simplesmente não precisam de se apertar no MRT.

O estatuto muda de lugar. O vizinho com um Nissan riscado pode não estar a “perder” - pode estar a investir em liberdade diária, mesmo sem glamour.

Pode nunca comprar um carro. Ou pode um dia assinar um COE com as mãos a tremer, sabendo exatamente o que está a trocar. Em qualquer dos casos, perceber esta mecânica muda a forma como se lê a cidade: cada carro é uma decisão pública, feita de prioridades privadas.

O Lamborghini vai sempre virar cabeças numa sexta à noite. Mas as histórias mais reais estão nos parques de vários pisos, nos monovolumes e nos compactos amolgados que tornam a vida um pouco menos cansativa.

A lição pode ir além de Singapura: às vezes, luxo não é a coisa espetacular - é a coisa banal que compra tempo, e que muita gente não consegue sustentar em silêncio.

  • A posse de um carro como verdadeiro luxo: COE + custos recorrentes fazem com que até um carro básico sinalize capacidade financeira.
  • Decisões emocionais vs racionais: carros compram tempo, conforto e controlo - e cobram em dinheiro e escolhas.
  • Redefinir símbolos de estatuto: veículos práticos e discretos podem representar mais privilégio do que desportivos vistosos.

FAQ:

  • Ter um carro em Singapura é mesmo assim tão caro?
    Muitas vezes, sim: além do carro, paga-se o COE (geralmente por 10 anos) e custos fixos e variáveis (impostos, seguro, estacionamento, manutenção e, por vezes, ERP). O total pode facilmente ultrapassar o que noutros países compraria “mais carro” - ou outra coisa maior.
  • Porque é que Singapura torna tão difícil ter carro?
    A ilha é pequena, com estrada e solo limitados. O Estado controla o número de carros via quotas e preço (COE), para conter congestionamento e uso de espaço.
  • Ferraris e Lamborghinis são comuns lá?
    Vêem-se em zonas centrais e em certos horários, mas o quotidiano é dominado por carros práticos (muitos japoneses e coreanos) e por transportes públicos.
  • A maioria dos singapurenses quer mesmo ter um carro?
    Muitos gostariam, pela conveniência, sobretudo com crianças ou familiares dependentes. Mas muita gente depende do MRT/autocarros porque o custo de ter e manter carro é alto.
  • Qual é a verdadeira “flex” para os locais?
    Muitas vezes não é o supercarro. É conseguir ter e manter um carro “normal” com folga - e usá-lo para ganhar tempo e aliviar o dia-a-dia.

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