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Um prémio Nobel da Física concorda com Elon Musk e Bill Gates: no futuro haverá mais tempo livre mas menos empregos tradicionais.

Homem a trabalhar num portátil com tabelas, segurando um relógio; tablet e bloco de notas na mesa de madeira.

O futuro que Musk e Gates anteciparam já está à porta

A transformação já se vê em armazéns, fábricas e backoffices: mais sensores, mais software a decidir, menos trabalho “de mãos”. Em muitos escritórios, a automação entra sem grande barulho - triagem de e‑mails, respostas de apoio ao cliente, faturação, reconciliações simples, rascunhos de textos. O efeito é semelhante: tarefas que antes ocupavam horas passam a resolver‑se em minutos.

Musk insiste que a IA fará “quase tudo” e que o trabalho remunerado pode tornar‑se opcional, suportado por algum tipo de rendimento básico. Gates fala em soluções como “impostos sobre a IA” ou sobre ganhos de produtividade para financiar proteção social, caso o emprego tradicional encolha. Parisi (Nobel da Física, 2021) acrescenta o ponto mais duro: a automação pode avançar mais depressa do que leis, escolas e instituições conseguem acompanhar.

O sinal raramente é “o emprego acabou”. É mais subtil: acabam tarefas.

Uma regra prática útil:

  • Se mais de metade do seu trabalho é previsível, repetitivo, feito em software e com regras claras, costuma haver alta probabilidade de compressão (menos pessoas, menos horas, menos progressão).
  • O que aguenta melhor tende a ter exceções frequentes, responsabilidade legal, decisões ambíguas, negociação, ou relação humana - mas mesmo aí a função tende a mudar.

Cada automação isolada parece pequena (um bot aqui, um fluxo ali). Em conjunto, podem reduzir uma equipa sem “despedimentos dramáticos”: não se substitui, não se abre vaga, reorganiza‑se.

Há também um travão real (muito visível em Portugal): automatizar bem dá trabalho e custa dinheiro. Normalmente esbarra em:

  • dados pouco consistentes, processos “informais” e exceções;
  • integrações com ERPs e sistemas antigos;
  • RGPD (minimização de dados, base legal, retenção, e cuidado extra quando há dados sensíveis);
  • qualidade e auditoria: sem registos e validação, a empresa troca horas humanas por erros caros.

Por isso a mudança é desigual: acelera em tarefas simples e em empresas maiores; abranda onde há variabilidade, “remendos” e dependência de conhecimento tácito.

Como viver num mundo em que o tempo livre cresce e as carreiras clássicas encolhem

Isto não é apenas conversa para governos e tecnológicas. É um tema do dia a dia. Quem atravessa melhor a transição tende a tratar competências como portefólio vivo, não como identidade fixa.

Uma vez por semana, reserve 30 minutos e responda (5–7 linhas cada):

  • O que fiz esta semana que uma máquina consegue copiar facilmente?
  • O que fiz que exigiu contexto, julgamento, responsabilidade ou relação humana?
  • O que gostava de saber fazer nos próximos 3–6 meses?

A ideia é sair do “modo pânico” (só agir quando chega a reestruturação) e entrar num ciclo leve e sustentável.

Em vez de tentar estudar tudo, costuma resultar melhor uma consistência mínima:

  • 1 curso curto por ano (ou por semestre) ligado ao seu trabalho real, não ao hype.
  • 1 pequeno projeto por trimestre que comprove competência (um relatório melhor, um script simples, um processo documentado, um mini‑portefólio).
  • 1 conversa por mês com alguém de uma área em crescimento (pode ser dentro da sua empresa).

Um erro frequente é confundir “aprender IA” com “aprender uma ferramenta”. O que tende a dar retorno, na prática, é combinar três camadas:

  • Domínio (conhecer o negócio/área a sério).
  • Ferramentas (usar IA e automação com critério).
  • Controlo de qualidade (validar, testar, documentar, manter registos).

Giorgio Parisi tem defendido que a transição para uma economia pesada em IA “tem de ser governada”, alertando que, sem novos contratos sociais, os ganhos podem concentrar‑se em poucos enquanto muitos ficam sem trabalho estável - e sem um “para quê” claro.

Quando isto se transforma num plano pessoal, ajuda pensar em camadas que podem coexistir:

  • Curto prazo: trabalhar com IA, não contra ela - escrever pedidos claros, confirmar resultados, manter “human‑in‑the‑loop” quando há risco (cliente, dinheiro, saúde, conformidade).
  • Médio prazo: criar uma alternativa pequena ao salário (freelance, explicações, consultoria, serviços locais). Em Portugal, costuma ser mais viável começar com metas realistas (ex.: 100–300 €/mês) e tratar cedo do essencial: recibos verdes, IVA quando aplicável, retenção na fonte e contribuições para a Segurança Social.
  • Longo prazo: investir no que é difícil de copiar: confiança, ética, negociação, liderança, cuidado presencial, e responsabilidade por decisões.

A dádiva desconfortável de “tempo livre a mais”

A ideia desconfortável é esta: mais horas livres, menos trabalho tradicional a organizar os dias. Não são “férias prolongadas”; é uma alteração duradoura.

Para alguns, isto cria espaço para família, descanso, projetos e aprendizagem. Para outros, mexe com identidade: o trabalho era a bússola e a resposta automática a “Então, o que faz?”. O risco não é só financeiro; é também de rotina, pertença e propósito.

Três pontos práticos, sem romantizar:

  • A IA tende a começar por tarefas rotineiras, não por profissões inteiras. Se o seu trabalho tem muitas exceções, contacto humano e decisões ambíguas, tende a aguentar mais - mas pode ser reconfigurado.
  • Competências humanas tornam‑se a camada premium: explicar, decidir, assumir responsabilidade, lidar com conflito, e proteger confiança (cliente, doente, cidadão, equipa). Em funções reguladas, saber “quando não automatizar” vale tanto como automatizar.
  • Desenho de vida conta tanto como desenho de carreira: mais tempo livre pede estrutura mínima (rotina, comunidade, projetos). Sem isso, o “tempo livre” vira ansiedade e dispersão.

FAQ:

  • A IA vai mesmo tirar “a maioria” dos empregos? Em geral, não de uma vez, nem de forma uniforme. Muitas vezes substitui partes do trabalho, o que reduz a necessidade de algumas funções e cria outras (integração, supervisão, qualidade, conformidade, operação).
  • Devo aprender a programar para me manter relevante? Pode ajudar, mas não é obrigatório. Para muita gente, o melhor retorno vem de: saber usar ferramentas com critério, entender dados básicos (formatos, qualidade, privacidade), documentar processos e medir resultados.
  • Que carreiras parecem mais seguras neste futuro? Em termos gerais, funções com presença e cuidado (saúde, apoio, serviços no terreno), alta confiança/risco (segurança, compliance, auditoria) e decisões com contexto (produto, estratégia, liderança) são mais difíceis de automatizar por completo - mesmo que sejam “aumentadas” por IA.
  • E se eu até gosto do meu trabalho rotineiro? É válido. O essencial é não ficar sem opções: acrescente em paralelo uma competência útil, uma certificação relevante, ou um projeto pequeno que mostre capacidade de assumir tarefas menos repetitivas.
  • Vamos mesmo receber dinheiro para “não fazer nada” um dia? Há experiências e debate sobre rendimentos garantidos e redes de segurança, mas nada é certo. O ponto é preparar regras, financiamento e transições antes de a pressão social e laboral se tornar insustentável.

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