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Heranças: se um herdeiro recusa, quem paga a parte dele?

Pessoas analisam documentos e usam calculadoras numa mesa de madeira, com um envelope e chave ao lado.

Quando um dos pais morre, o luto deveria aproximar as pessoas.

Em vez disso, a conta dos impostos pode separar irmãos.

Por toda a Europa e além, as famílias saem de um funeral e entram diretamente num labirinto burocrático. À medida que o choque passa, os prazos do imposto sucessório aproximam-se, os bens ficam congelados e uma pergunta simples começa uma guerra silenciosa: se um herdeiro não consegue - ou não quer - pagar, quem é que, na prática, fica com a conta?

Quando um legado se torna um passivo

Uma herança parece muitas vezes um golpe de sorte no papel. Na vida real, pode parecer uma armadilha financeira. Casas, terrenos, ações e obras de arte podem parecer valiosos, mas não se transformam magicamente em dinheiro antes de o fisco bater à porta. Em vários países europeus, incluindo a França, os herdeiros têm de entregar a declaração do imposto sucessório no prazo de seis meses após a morte. Esse relógio anda depressa quando ninguém tem o dinheiro pronto.

O problema clássico: o património tem tijolos e memórias, não notas. Um filho herda parte da casa de família, outro parte de um apartamento arrendado, talvez algumas poupanças. A conta do imposto chega antes de a casa ser vendida, antes de os inquilinos mudarem, muito antes de a família decidir o que manter ou deixar ir.

Para familiares que já vivem com orçamentos apertados, a parte do imposto pode exceder as suas poupanças anuais. Um único herdeiro em dificuldades financeiras pode empurrar todo o processo para uma crise.

Em muitos sistemas jurídicos, o património parece individual, mas o risco fiscal recai diretamente sobre os ombros de todos.

Herança e responsabilidade solidária: porque o “não” de uma pessoa afeta toda a gente

Muitos herdeiros partem do princípio de que só são responsáveis pela “sua” fatia do imposto sucessório. Esperam uma fatura pessoal, um pagamento pessoal e nenhuma consequência se um irmão falhar o pagamento. Em países como a França, essa suposição cai muito depressa.

A lei tende a tratar os herdeiros como solidariamente responsáveis pelo imposto devido sobre o património que partilham. Isto significa que a autoridade tributária pode escolher o herdeiro que considerar mais solvente e exigir-lhe o montante total em falta, incluindo juros e coimas. O irmão com poupanças, a irmã com um salário estável, ou quem já tem casa própria torna-se frequentemente o alvo, mesmo que um primo ou irmão tenha causado o incumprimento.

Se um herdeiro não pagar, as finanças não vão esperar pacientemente por uma cimeira familiar. Vão cobrar a alguém que possa pagar.

Esta solidariedade nem sempre se aplica a todos os que recebem algo. Muitos sistemas europeus distinguem claramente entre:

  • Herdeiros legais (filhos, cônjuge, pais, etc.): partilham a herança e, frequentemente, a responsabilidade fiscal.
  • Legatários por testamento (amigos, parentes distantes, instituições de solidariedade/beneficência): recebem um bem específico e, em regra, só pagam sobre o que recebem.

Uma instituição que recebe um quadro ou um amigo que recebe um legado em dinheiro raramente assume o risco do imposto em falta de outra pessoa. Pagam a sua parte e seguem caminho. Já os familiares diretos podem descobrir que ficam financeiramente “amarrados” muito depois de terem deixado de se falar do ponto de vista emocional.

Quando chega o prazo e não há liquidez

Então, o que acontece quando chega a conta e um herdeiro não tem forma de pagar? A autoridade fiscal continua a querer o dinheiro dentro do prazo legal. O pagamento fora de prazo costuma gerar juros, e atrasos repetidos abrem a porta a sobretaxas ou medidas coercivas de cobrança.

Dentro da família, isto cria vários cenários dolorosos:

Cenário Impacto imediato Risco a longo prazo
Um herdeiro simplesmente não consegue pagar Os outros pagam mais para proteger o património Ressentimento profundo, futura ação judicial para reembolso
Um herdeiro recusa por princípio A autoridade fiscal pressiona os herdeiros mais solventes Relações quebradas, negociações que se arrastam durante anos
Ninguém tem liquidez Venda forçada de ativos sob pressão de tempo Imóveis vendidos abaixo do valor de mercado, erosão da riqueza familiar

O herdeiro que paga mais do que a sua quota-parte costuma ter o direito legal de exigir reembolso aos demais. Isto significa novos processos entre particulares, mais honorários jurídicos e mais demora em transformar os bens em dinheiro utilizável. O luto transforma-se em litigância.

Recusar a herança: uma saída radical, mas “limpa”

Uma solução costuma chocar: pode dizer “não” a uma herança. Em muitas jurisdições, os herdeiros têm um prazo fixo - muitas vezes alguns meses - para aceitar, recusar, ou aceitar sob condições.

A recusa corta o nó de forma brutal. O herdeiro:

  • Deixa de ser herdeiro.
  • Não paga imposto sucessório.
  • Não recebe bens, dinheiro, nem objetos com valor sentimental.

A sua quota normalmente passa para a pessoa seguinte na linha, como os seus próprios filhos, irmãos, ou o Estado se não houver mais ninguém. Isto pode proteger alguém muito endividado ou incapaz de suportar imposto adicional. Também pode desencadear consequências não intencionais: um neto torna-se subitamente coproprietário de uma casa, com toda a burocracia que isso implica.

Recusar uma herança elimina tanto o peso como o benefício. É uma decisão financeira, não apenas emocional.

Adiar o pagamento: pagar imposto na faixa lenta

Para quem aceita a herança mas não tem dinheiro imediato, muitos países oferecem planos de pagamento. Em França, por exemplo, os herdeiros podem pedir:

Pagamento fracionado

O imposto é dividido por vários anos, em prestações calendarizadas. O Estado costuma exigir garantias, como uma hipoteca sobre o imóvel herdado ou um penhor sobre valores mobiliários. Há juros, pelo que quanto maior for o adiamento, maior será a conta final.

Pagamento diferido

Por vezes, o pagamento pode ser adiado até um evento posterior, como a venda do imóvel herdado ou a morte do cônjuge sobrevivo. Novamente, isto vem com condições, garantias e juros. Dá margem para manter a casa de família em vez de a vender sob pressão.

Estes mecanismos não resolvem o problema da solidariedade. Se um herdeiro falhar as prestações, os outros podem continuar a ser alvo de cobrança. Mas ajudam a evitar vendas “ao desbarato” e dão mais tempo para acordar vendas de ativos ou refinanciamentos.

Pagar com bens: a via invulgar “em espécie”

No topo da escala de riqueza, existe outro método muito mais raro: pagar imposto sucessório com bens em vez de dinheiro. A França popularizou-o através de heranças mediáticas, incluindo a de Pablo Picasso. O Estado aceitou obras de arte e património valioso em substituição de dinheiro, integrando-os em coleções nacionais.

Este mecanismo, conhecido como “dation”, segue normalmente regras rigorosas:

  • Só certos tipos de bens qualificam, como grandes obras de arte, coleções ou terrenos de relevância ambiental.
  • O Estado tem de concordar que o bem tem valor patrimonial ou cultural.
  • A avaliação e a aprovação envolvem procedimentos complexos com peritos e decisões ministeriais.

Para as famílias comuns, isto é sobretudo teórico. Ainda assim, mostra como regras sucessórias rígidas podem, por vezes, flexibilizar-se em casos excecionais, quando o interesse público encontra a riqueza privada.

Planear com antecedência: o que os pais podem fazer antes que seja tarde

Grande parte do drama começa porque ninguém fala de dinheiro com antecedência suficiente. Os pais evitam o assunto. Os filhos assumem que a casa “vai ficar na família”. Depois chega a morte, e o fisco torna-se um convidado não desejado no velório.

Existem várias opções para quem quer reduzir o risco de uma crise familiar movida por impostos:

  • Doar bens gradualmente em vida, dentro dos limites/benefícios fiscais, em vez de transmitir tudo na morte.
  • Contratar um seguro de vida destinado a cobrir o imposto sucessório estimado.
  • Realizar reuniões familiares para explicar quem vai herdar o quê - e porquê.
  • Pedir a um notário ou advogado de sucessões simulações, incluindo cenários fiscais de pior caso.

Estes passos não reduzem apenas o imposto. Ajudam a identificar herdeiros que podem ter dificuldade em pagar e a desenhar um plano que não os deixe “debaixo do autocarro” - nem force os irmãos a escolher entre a harmonia familiar e as suas poupanças.

Como avaliar o seu próprio risco antes de uma futura herança

Qualquer pessoa que possa vir a herdar bens num país com imposto sucessório pode fazer uma simulação mental aproximada. Comece com três perguntas simples:

  • Qual é o valor de mercado aproximado dos bens que poderá receber?
  • Que montante de isenção (ou abatimento) fiscal se aplica entre si e a pessoa que deixa a herança?
  • Quanto dinheiro disponível teria, num prazo de seis meses após a morte dessa pessoa?

A diferença entre o imposto esperado e a sua liquidez disponível é a sua zona de vulnerabilidade. Se já sabe que não conseguiria cobrir esse buraco sem vender ativos à pressa ou contrair dívida pesada, está no grupo de risco em que as regras de solidariedade podem também atingir irmãos ou primos.

É nesse momento que deve falar com o futuro autor da herança e com um profissional. Podem ajustar um testamento, reorganizar ativos ou estruturar um seguro de vida para que nenhum herdeiro se torne o elo fraco que arrasta todos para o conflito quando chegar a hora.

Por trás de cada história de herança não está apenas a lei, mas também a psicologia. Alguns herdeiros sentem culpa por recusar; outros sentem-se encurralados por pagar por irmãos. Compreender como as autoridades fiscais veem a família - como uma unidade financeira, não apenas como um conjunto de indivíduos - ajuda a evitar surpresas amargas quando um herdeiro diz “não” e a pergunta passa a ser: quem, no fim, vai realmente pagar?

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